Pesquisa com participação da Unemat indica caminhos para alinhar dignidade e conforto no tratamento de feridas oncológicas
Pesquisa publicada na Revista Sociedade Científica analisa estratégias para minimizar dores, odores e impactos psicossociais em pacientes sem possibilidade de cicatrização
Por Hemília Maia
14/10/2026
O manejo de feridas neoplásicas malignas, lesões provocadas pelo avanço do câncer que frequentemente não cicatrizam, exige uma mudança de postura das equipes de saúde: quando a cura ou a regeneração tecidual já não são viáveis, a prioridade da assistência deve se voltar ao controle dos sintomas, ao conforto e à preservação da autonomia do paciente.
A conclusão integra uma revisão científica publicada na Revista Sociedade Científica, elaborada pela professora Marilene Aparecida Moreira, do Câmpus Universitário de Cáceres da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Faculdade Maurício de Nassau (UniNassau).
A investigação analisou 25 estudos internacionais publicados entre 2015 e 2025 para identificar as condutas de enfermagem mais eficazes no alívio de quadros graves, além de avaliar os reflexos emocionais e sociais causados pelo odor, dor, sangramento e exsudato (secreção).
Vivência acadêmica e alívio do sofrimento

Docente da Unemat, Marilene Aparecida Moreira acompanha estudantes de Enfermagem em estágios supervisionados e atividades práticas na rede pública, vivenciando o atendimento a pacientes com diferentes condições clínicas, incluindo quadros oncológicos. Essa bagagem assistencial motivou sua inserção na pesquisa interinstitucional, reforçando a importância de integrar o ensino universitário à rotina dos serviços de saúde.
A contribuição da pesquisadora para o estudo destaca a necessidade de uma assistência humanizada, capaz de acolher não apenas o quadro clínico, mas também as demandas emocionais e de conforto do indivíduo em situação de vulnerabilidade.
"No cuidado às feridas neoplásicas, nem sempre o objetivo principal será promover a cicatrização. Quando estamos diante de uma lesão avançada, precisamos priorizar o controle dos sintomas, o conforto e a segurança do paciente. Cuidar de uma ferida significa reconhecer a história, os sentimentos e a dignidade de quem convive com ela", afirma a professora.
De acordo com o estudo, complicações como o odor acentuado e o extravasamento de secreções afetam profundamente a autoimagem do indivíduo, provocando constrangimento, isolamento e abalo psicológico. O controle efetivo desses desconfortos correlaciona-se diretamente com a recuperação da autoestima e com a reaproximação da convivência familiar e comunitária.
Evidências clínicas e alcance científico
No levantamento das condutas clínicas, a revisão destacou soluções que apresentaram eficácia no manejo de complicações cotidianas. Para o controle do odor, ensaios apontaram resultados equivalentes na redução do sintoma até o oitavo dia com o uso de poli-hexanida (PHMB) a 0,2% e de metronidazol a 0,8%. Já no alívio da dor durante a troca de curativos, a aplicação tópica do anestésico lidocaína/prilocaína a 5% ofereceu maior conforto em comparação à administração oral de morfina em situações selecionadas. Além disso, a higienização suave com soluções não citotóxicas e o emprego de coberturas atraumáticas e absorventes confirmaram-se como pilares para evitar traumas no tecido tumoral e novos sangramentos.
Apesar dos resultados favoráveis, a professora pondera que a literatura científica atual sobre o tema ainda apresenta limitações metodológicas, como amostragem reduzida e tempo curto de acompanhamento. "Não podemos afirmar que existe um único produto ideal para todos os casos. A orientação central ao profissional é avaliar, planejar, aliviar os sintomas e reavaliar continuamente", ressalta Marilene.
Embora a pesquisa não tenha mensurado diretamente a aplicação desses dados no currículo da Unemat ou na rede pública do Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso, o levantamento oferece subsídios teóricos e científicos capazes de orientar revisões pedagógicas e guiar condutas assistenciais na região.
Gestão de insumos e cooperação entre instituições
A aplicação prática dessas evidências frequentemente esbarra nas condições materiais dos serviços de saúde. Diante de limitações orçamentárias ou eventual escassez de materiais na rede pública, a docente ressalta que o planejamento técnico e a limpeza cuidadosa continuam sendo ferramentas decisivas.
"A qualidade do cuidado não depende exclusivamente de uma cobertura de alto custo. Ela depende de avaliação adequada, prevenção de danos e capacidade de aliviar o sofrimento. Ao mesmo tempo, garantir condições adequadas de assistência é uma responsabilidade institucional e de gestão, e não apenas do profissional individual", pontua.
Marilene faz questão de destacar que o valor da pesquisa reside justamente na soma de esforços entre diferentes centros de ensino superior. A colaboração entre pesquisadores da Unemat, UFRJ, Unirio, Uerj e UniNassau permitiu cruzar diferentes perspectivas e experiências da área de oncologia e estomaterapia.
"A participação em uma rede interinstitucional amplia o diálogo entre pesquisadores, instituições de ensino e serviços de saúde. Essa cooperação fortalece a produção científica e aproxima o ensino da prática clínica, com o propósito de oferecer um cuidado fundamentado em evidências e comprometido com a dignidade humana", reitera a docente.
Formação humanizada e apoio profissional

Os dados consolidados pelo estudo alimentam discussões teóricas em disciplinas como Enfermagem Oncológica, Tratamento de Feridas e Cuidados Paliativos, além de embasarem estudos de caso e simulações na universidade. O texto alerta ainda para o desgaste psicológico e a sensação de impotência enfrentados pelas equipes de enfermagem diante de quadros irreversíveis, apontando a necessidade de suporte institucional e educação permanente.
"Não conseguir curar uma doença não significa não ter o que fazer pelo paciente. O sucesso da assistência não deve ser medido apenas pela cicatrização de uma ferida, mas pela capacidade de proporcionar conforto, segurança e qualidade de vida. Cuidar continua sendo essencial, mesmo quando curar já não é possível", conclui Marilene.
Serviço
O artigo Manejo de feridas neoplásicas malignas pela enfermagem e repercussões relatadas sobre a qualidade de vida: revisão integrativa (DOI: 10.61411/rsc2026142419), assinado por Deison Araújo Castro, Maryanni Vitorino dos Santos, Antônio Carlos Guilherme Rocha, Luciana Calçada Ferreira, Kauan Silva Castro, Marilene Aparecida Moreira e Cristiana Fialho Braz da Silva, está disponível no site da Revista Sociedade Científica.
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